Ecotelhado

COMO INTEGRAR OS 12 PRINCÍPIOS DA PERMACULTURA PARA UM PROJETO REALMENTE SUSTETÁVEL

31 de maio de 2017

Os 12 princípios publicados aqui são explicados detalhadamente no livro Permaculture: Principles and Pathways Beyond Sustainability, de David Holmgren.

Em 1978, os ecologistas australianos David Holmgren e Bill Mollison cunharam pela primeira vez o conceito de permacultura como um método sistemático. Para Mollison, “permacultura é a filosofia de trabalhar com e não contra a natureza, após uma observação longa e porfunda.” Enquanto isso, Holmgren define o termo como “aquelas paisagens conscientemente projetadas que simulam ou imitam os padrões e as relações observadas nos ecossistemas naturais.”

Em 2002, Holmgren publicou o livro Permacultura: Princípios e Caminhos Além da Sustentabilidade, que define 12 princípios de projeto que podem ser utilizados como um guia ao gerar sistemas sustentáveis. Estes princípios podem ser aplicados a todos os processos diários a fim de humanizá-los, aumentar a eficácia, e, a longo prazo, assegurar a sobrevivência da humanidade.

E se nós aplicá-los ao processo de concepção de um projeto de arquitetura?

Princípio 01: OBSERVE E INTERAJA

“Ao tomar um tempo para se envolver com a natureza, podemos projetar soluções que se adequem à nossa situação particular.” – David Holmgren

De acordo com Holmgren, o primeiro princípio é focado na observação da natureza, a fim de compreender os elementos do sistema em que estamos trabalhando, antes de agir sobre ele. As tentativas de entender e realmente se envolver com a situação que enfrentamos deve, naturalmente, conduzir a uma reflexão profunda que nos permita oferecer uma resposta adequada.

“Na arquitetura, antes de se sentar para projetar, você precisa perguntar-se: Qual é a necessidade real do usuário desse projeto? Qual o contexto que o rodeia? Como posso responder a essa necessidade da forma mais adequada e eficiente possível? ”

Conectar-se com o usuário e interagir com o contexto do projeto facilitará nosso processo consciente quando envolvidos com a demanda. Vamos ter menos oportunidades de fazer suposições erradas e seremos obrigados a respeitar as condições pré-existentes dos usuários e circunstâncias específicas. O resultado de um bom projeto virá se estivermos atentos aos indícios que estamos recebendo.

O que você realmente precisa? O que o usuário do projeto que estou projetando precisa?

Princípio 02: CAPTE E ARMAZENE ENERGIA

“Desenvolvendo sistemas que coletam recursos quando eles são abundantes, podemos usá-los em momentos de necessidade.” – David Holmgren

A “febre verde” que se abateu sobre a arquitetura há alguns anos depende de uma sustentabilidade bastante passiva, com o objetivo de alcançar a eficiência real de todas as formas possíveis. No entanto, para além das “técnicas sustentáveis” que podem ser aplicadas, uma pergunta apropriada que diz respeito a este princípio poderia ser: como é que vamos entregar a melhor arquitetura possível, utilizando apenas os recursos disponíveis, ou até menos?

Embora a própria arquitetura possa funcionar como um sistema para capturar, armazenar e utilizar os recursos disponíveis, tais como o vento, luz solar e água da chuva, nossa responsabilidade como arquitetos não deve ser reduzida a esses métodos.

“Devemos estar conscientes de que cada linha que traçamos em nossa planta tem um custo associado, uma pegada. Não faz sentido levantar grandes arranha-céus cheios de painéis solares se a própria construção gera um enorme desperdício de recursos e uma série de externalidades negativas em outras áreas. ”

Como entregar a melhor arquitetura possível, utilizando os recursos disponíveis, ou até menos?

Princípio 03: OBTENHA UM RENDIMENTO

“Certifique-se que você está recebendo recompensas realmente úteis como parte do trabalho que está fazendo.” – David Holmgren

Por este princípio, Holmgren diz que “você não pode trabalhar com o estômago vazio”, assegurando que obtemos recompensas imediatas para nos sustentar. Ele acrescenta que os sistemas projetados devem garantir a sobrevivência da comunidade, sem comprometer o seu futuro e que a produtividade deve ser medida em termos dos produtos reais do esforço que foi investido.

“Além do pagamento monetário justo e necessário que recebemos para o nosso trabalho, o nosso desempenho e produtividade como arquitetos deve ser mensurável em relação a todas as externalidades positivas que nossos projetos estão gerando. “

Um projeto de arquitetura tem a capacidade de influenciar muito o contexto em que ela opera, e não podemos perder a oportunidade de identificar e desenvolver seus potenciais benefícios, na medida do possível. Um projeto não pode ser considerado sustentável se ele só enche nossos bolsos, mas não “se entregar” positivamente de outras maneiras, ou pior, prejudicar o seu entorno.

Nosso desempenho e produtividade como arquitetos deveriam ser mensuráveis em relação a todos aqueles projetos que estão gerando externalidades positivas.

Princípio 04: APLICAR A AUTO-REGULAÇÃO E ACEITAR O FEEDBACK

“Precisamos desencorajar as atividades impróprias para assegurar que os sistemas possam continuar a funcionar bem.” – David Holmgren

Este princípio é representado pelo planeta Terra, com a ideia de mostrar o mais visível “exemplo de um organismo auto-regulado”, sujeita a controles de feedback, como o aquecimento global.” O provérbio usado para descrever isso sugere que esse feedback negativo geralmente leva tempo a surgir, e o impacto de nossas ações não são imediatamente visíveis.

No caso da arquitetura, somos geralmente preparados para planejar nossos projetos para o presente, mas não pensar muito sobre o que vai acontecer com eles no futuro. Não faz sentido fazê-lo dessa forma, porque nosso trabalho tem de encaixar um usuário e um contexto em particular, com as necessidades e requisitos que são relevantes atualmente. Como podemos nos livrar de um futuro imprevisível e desfavorável?

“A chave é apenas “auto-regular” o que propomos, a fim de desencorajar, prevenir ou repensar as respostas de projeto (e / ou atividades conexas) que pelo menos hoje, podemos identificar como impróprias. “

A chave é a ‘auto-regulação’ do que nós projetamos, a fim de desencorajar todas as respostas ed design que pelo menos hoje, podemos identificar como impróprio.

Princípio 05: USE E VALORIZE FONTES RENOVÁVEIS

“Faça o melhor uso da abundância da natureza para reduzir o nosso comportamento de consumo e dependência de recursos não renováveis.” – David Holmgren

Por esta altura, a chamada é “deixar a natureza seguir seu curso,” na maior medida possível, e Holmgren nos dá um exemplo, um pouco extremo, mas claro para entender sua profundidade. A construção do Instituto Argentino de Permacultura foi projetado e construído com palha e terra, materiais que se não receberem manutenção – para permitir a vida no interior do edifício – lentamente voltarão novamente à Terra. Seu impacto é mínimo e sua vida útil está diretamente associado ao seu uso.

“Este é um princípio difícil de aplicar, pois estamos habituados a – e fomos treinados para – usar materiais, sistemas e serviços baseados em processos (não renováveis) de combustíveis fósseis, mas nos desafia a incorporar tantos recursos quanto possível, que podem ser restaurados a uma taxa mais elevada do que seu consumo. “

Energia solar, eólica, hídrica e geotérmica, ou biomassa e biocombustíveis, podem ser opções eficazes para explorar o que permite a operação de nossos projetos “fora da rede”; enquanto alguns materiais renováveis como o adobe, cortiça, palha e bambu podem oferecer boas alternativas se aplicados corretamente. Madeiras produzidas através de técnicas de sustentáveis silvicultura também podem ser adicionadas à lista.

O desafio esta em incorporar quais recursos que podem “ser restaurados em uma taxa superior do que a do consumo.”

Princípio 06: NÃO PRODUZA RESÍDUOS

“Se valorizarmos e fazermos uso de todos os recursos que estão disponíveis para nós, nada vai para o lixo.” – David Holmgren

Este princípio é simplesmente baseado no uso de todos os recursos que temos disponíveis, evitando desperdício de material. É fácil desperdiçar quando temos abundância, mas o que seria de nós se não existissem depósitos lotados de materiais de construção para construir nossos projetos?

Nós crescemos em um mundo extravagante e, como arquitetos, desde nossos primeiros meses na universidade começamos a gastar mais do que o necessário. Toda semana fazemos maquetes e imprimimos metros de folhas de papel; materiais caros, em muitos casos acabam rapidamente no lixo. Na vida profissional, o plotter está continuamente trabalhando arduamente e as nossas velhas maquetes são amplificadas para a escala 1:1.

“Por que não projetamos sempre a partir das dimensões padrão de materiais para evitar o desperdício? Por que não consideramos se é realmente necessário que nosso projeto de residência tenha 600m², ou se esse balanço ou aquela parede curva que nos obrigue a gastar recursos cada vez mais escassos são justificadas? “

Por que não projetar a partir das dimensões padrão dos materiais para evitar o desperdício?

Princípio 07: PROJETE DESDE OS PADRÕES AOS DETALHES

“Dando um passo para trás, podemos observar padrões na natureza e na sociedade. Esses podem formar a espinha dorsal de nossos projetos, incluindo os detalhes à medida que avançamos.” – David Holmgren

Para explicar este princípio, Holmgren dá o exemplo da teia de aranha: cada uma é única, no entanto, o padrão geométrico de anéis em espiral é universal.

“Muitas vezes nos é dito na escola de arquitetura que não é necessário “reinventar a roda” cada vez que realizamos um novo projeto. Há muitas operações, dimensões e configurações espaciais que são óbvias e eficazes para a arquitetura, porque elas provêm diretamente das experiências anteriores e do comportamento dos seres humanos. “

Se seguirmos esses padrões comprovados usando o bom senso, vamos estar trabalhando em uma base sólida e inquestionável, que pode levar ao pleno potencial de um projeto através do seu desenvolvimento. Os detalhes, como parte de nossa contribuição particular, afastam-se de mero ornamento para emergir como um valor agregado, que apoia e dá identidade e especificidade à resposta.

Há muitas operações, dimensões e configurações espaciais que são óbvias na arquitetura e eficazes que surgem diretamente da experiência e do comportamento dos seres humanos anterior.

Princípio 08: INTEGRAR, NÃO SEGREGAR

“Colocando as coisas certas no lugar certo, as relações se desenvolvem entre eles e apoiam umas às outras.”– David Holmgren

Este princípio é claro e todos nós temos visto na universidade ou na nossa vida profissional: “Muitas mãos tornam o trabalho mais leve.” É provável que trabalhar em conjunto nos permitirá chegar a um resultado melhor, porque podemos compartilhar estratégias, comparar pontos de vista, e questionar nossas idéias uns com os outros, além de acelerar um processo que, individualmente, pode levar mais tempo e ser menos eficiente, ou mesmo errado. Mas podemos ir mais longe:

“Nossos projetos podem ser realmente integrados se todos os elementos que os constituem estão adequadamente trabalhando juntos, formando um todo coeso, onde nada falta e nada é supérfluo. “

Além disso, a possibilidade está em nossas mãos para definir a forma como o espaço projetado será habitado no futuro e, nesse sentido, é possível incorporar operações sutis que incentivam a integração entre os usuários, criando espaços de fricção e reunião que entram em equilíbrio com os espaços privados essenciais para o desenvolvimento individual.

Trabalhando juntos nos permite alcançar um resultado melhor, porque podemos compartilhar estratégias, comparar pontos de vista, e questionar as nossas ideias para o outro.

Princípio 09: USE SOLUÇÕES PEQUENAS E LENTAS

“Sistemas pequenos e lentos são mais fáceis de manter do que os grandes, fazendo uma melhor utilização dos recursos locais que produzem resultados mais sustentáveis.” – David Holmgren

Neste ponto, o conceito de “manutenção” surge como um assunto que é muito mais importante do que parece, porque quanto maior é um edifício, mais recursos e processos são necessários para preservá-lo e evitar sua deterioração.

Se nós, como arquitetos, estamos realmente comprometidos com um projeto e seu futuro, vamos tentar fazer o nosso projeto minimizar e facilitar os requisitos de manutenção, a partir de seus materiais para o tamanho e a configuração dos espaços.

“Uma boa construção deve exigir um mínimo de atenção de seus usuários, permitindo-lhes realizar suas atividades sem constantemente se preocuparem sobre os sistemas deteriorados ou materiais que mostram desgaste excessivo. “

Se as dimensões de um projeto são ajustadas às reais necessidades do cliente, ele é mais eficiente na sua construção, pois utiliza menos mão de obra e menos recursos. Por sua vez, torna-se mais fácil alcançar o conforto térmico, facilitando o aquecimento e resfriamento de interiores, e até melhora outras questões cotidianas, como a simplificação da limpeza.

O edifício que é maior, requer mais recursos e processos necessários para preservá-lo e evitar a deterioração.

Princípio 10: USE E VALORIZE A DIVERSIDADE

“Diversidade reduz a vulnerabilidade de uma variedade de ameaças e tira vantagem da natureza única do meio ambiente no qual ele reside.” – David Holmgren

Neste décimo princípio, Holmgren diz “não coloque todos os ovos na mesma cesta”, afirmando que a diversidade “oferece seguro contra as variações do nosso ambiente.”

Se notarmos, a cidade tem diferentes tipos de edifícios, com diferentes tamanhos, configurações e orientações. Cada um foi destinado a responder às condições específicas de cada local e de um usuário em particular. Se em vez disso, encontramos bairros onde absolutamente todas as casas são as mesmas, algo está errado. Por que uma casa situada na rua principal é igual a uma que está localizada em uma rua tranquila com pouco movimento? Por que uma casa que recebe muita luz a partir do norte é igual a uma que é mais orientada para o sul? Isso não faz sentido.

“Diversidade reflete uma certa especificidade nas respostas que cada arquiteto entregou, permitindo que cada projeto seja concebido de acordo com as circunstâncias que o rodeiam. “

Se em uma cidade podemos observar que existem diferentes tipos de edifícios, é porque cada um tinha a intenção de responder a condições específicas para cada campo e determinado usuário.

Princípio 11: USE LIMITES E VALORIZE O MARGINAL

“A interface entre as coisas é o local onde os eventos mais interessantes acontecem. Estes são muitas vezes os elementos mais valiosos, diversos e produtivos no sistema.” – David Holmgren

“Não considere estar no caminho certo só porque todo mundo usou-o.” Holmgren é claro em dizer que a técnica mais popular nem sempre coincide com a melhor abordagem.

“Este princípio nos diz para aproveitar e valorizar todas as oportunidades que, à primeira vista, não parecem relevantes, e analisar a comissão recebida com os olhos abertos, permitindo-nos ver além do óbvio. “

Se o nosso projeto parece estar se movendo no rumo equivocado, pode ser bom mudá-lo completamente. Se não encontramos variáveis contidas dentro do terreno que nos ajudam a projetar, pode ser bom olhar além dos muros que o cercam.

Nas bordas, apenas por estarem fora da “norma” (ou de um olhar centralizado), começam a suceder uma série de situações espontâneas que, na maioria dos casos, estão corretos pois surgem naturalmente, sem pressão ou estereótipos. Nossos projetos devem surgir da mesma forma; evitando preconceitos e modas que nos restrinjam a trabalhar dentro de certas margens, porque podemos facilmente ignorar o “ponto-chave” do projeto.

Nas bordas ocorre uma série de situações espontâneas que na maioria dos casos estão corretos para surgir naturalmente, sem pressão ou estereótipos.

Princípio 12: USE CRIATIVAMENTE E RESPONDA ÀS MUDANÇAS

“Podemos ter um impacto positivo na mudança inevitável ao observar cuidadosamente, e depois intervir no momento certo.” – David Holmgren

Finalmente, Holmgren disse que “a visão não é ver as coisas como elas são, mas como elas serão” e que “entender a mudança como muito mais do que uma projeção linear.”

Embora seja uma tarefa difícil, como arquitetos, devemos ser capazes de imaginar o futuro. Os edifícios que estão sendo construídos hoje compõem o contexto para outros arquitetos nas próximas décadas e, de alguma forma, estamos determinando o que continuará a ser utilizado ou não.

“Nossa responsabilidade é antecipar adequadamente o que está por vir, e a melhor maneira de fazer isso é ter certeza de que cada um dos nossos projetos ajude a orientar-nos, como seres humanos, para o melhor futuro possível. “

Talvez se seguirmos esses 12 princípios estaremos mais perto de deixar um bom legado. Não é mais que o senso comum.

Embora seja uma tarefa difícil, os arquitetos devem ser capaz de imaginar o futuro.

 

Referências | Archdaily; Plataforma Urbana

Imagens | José Tomas Francos

Adaptação e edição | Catarina Schmitz Feijó

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