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O DESASTRE DA CARNE PODRE EM QUE A INDIGESTÃO SERÁ TODA NOSSA

21 de março de 2017

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira (17/03) a Operação Carne Fraca, avaliada em seis estados e no Distrito Federa, para combater a corrupção de agentes públicos federais e crimes contra saúde pública cometidos pelos maiores frigoríficos do país. Na investigação consta o suposto esquema de propinas que permitia a distribuição de cargas adulteradas ou fora das normas de qualidade de carne, frango e embutidos de porco e aves, que seriam vendidas para o Brasil e para o exterior.

No despacho da ação, A operação atingiu mais de 70 empresas, entre elas frigoríficos e unidades de produção de fábricas de alimentos que são líderes do mercado nacional. São citadas as empresas BRF (Sadia e Perdigão), JBS (Friboi, Seara e Swift), o Grupo Peccin e o Frigorífico Souza Ramos.

A propina, de acordo com os policiais, era paga com dinheiro e entregas de mercadorias, principalmente carne. Segundo as investigações, entre as irregularidades estariam a liberação de carne vencida, contaminada, a troca de rótulos de validade, e o uso de substâncias químicas para maquiar carne estragada.

Para o Idec, as irregularidades cometidas por vários frigoríficos reforçam que o consumidor deve evitar alimentos ultraprocessados, produzidos a partir de carnes como salsicha, linguiça, nuggets, hambúrgueres, dentre outros.

VEJA O QUE A OPERAÇÃO ENCONTROU:

CARNE PODRE: Uma médica veterinária, responsável técnica pelo controle de qualidade do frigorífico Peccin, em 2014, relatou aos investigadores que o fiscal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Tarcísio Almeida de Freitas ‘era o responsável por receber e fiscalizar os insumos comprados pela empresa, sendo que sempre constava em seus relatórios que o procedimento estava dentro da legalidade, quando na verdade não estava’. A testemunha disse que eram usados ‘outros produtos mais baratos para substituir a carne na fabricação dos produtos agropecuários’, relatou a utilização de carne mecanicamente separada (CMS) na fabricação dos produtos, no lugar da carne regular. “Esclarecendo que sequer chegou a existir a entrada real de carne na empresa, exceto os carregamentos de carne estragada que presenciou a empresa receber”, declarou. Segundo a testemunha, a Peccin também comprava notas fiscais falsas de produtos com SIF (Serviço de Inspeção Federal) para justificar as compras de carne podre, e usava ácido ascórbico para maquiar as carnes estragadas.

CARNE DE PORCO: A Carne Fraca capturou uma conversa entre os sócios Idair e Nair Piccin em 8 de março de 2016 ‘acerca da utilização de carne de cabeça de porco, sabidamente proibida, na composição de embutidos’. “Mesmo cientes da proibição de utilização de carne de cabeça na linguiça, Idair ordena que sejam comprados 2.000 quilos do produto para a fabricação de linguiças”, destaca a investigação.

REEMBALAGEM DE PRODUTO: O fiscal agropecuário Daniel Gouvêa Teixeira, servidor federal que relatou à Polícia Federal a ocorrência de cobrança de propinas por agentes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e fraudes como uso de carne apodrecida por frigoríficos, afirmou em depoimento que funcionários da empresa BRF S.A. lhe informaram sobre irregularidades na empresa. Segundo a investigação, o fiscal Antonio Carlos Prestes descobriu ‘a venda irregular de produtos alimentícios (absorção de água em frango superior ao índice permitido e reembalagem de produtos inadequados para a venda, ocorrida em 22 de novembro de 2015)’.

CARNE VENCIDA: Grampo da Polícia Federal flagrou Paulo Rogério Sposito, controlador do Frigorífico Larissa, conversando com um funcionário. Segundo a investigação, o dono do Larissa ‘não demonstra qualquer surpresa com a substituição de etiquetas de validade em uma carga inteira de carnes de barriga ou com a utilização de carnes vencidas há 3 meses para a produção de outros alimentos (se é que se pode chamar de alimento algo composto por restos não mais aptos ao consumo humano)’.

SALMONELA: Em diálogo interceptado pela PF, o agente de inspeção federal Carlos César, presidente Associação dos Técnicos de Fiscalização Federal Agropecuária, e o auxiliar operacional em agropecuária Carlos Augusto Goetzke, o Carlão, ‘conversam sobre a contaminação de uma carga de carne de peru por salmonela, que teria retornado da Europa, provavelmente por não ter sido aceita’. A Operação Carne Fraca identificou que 18 toneladas de peru com salmonela teriam sido levadas para o frigorífico Santos e ‘eles teriam que ir lá para liberar a carga, mesmo sabendo que a carne estava contaminada’. “Carlos Cesar ainda sugere que a carne podre serve para fazer mortadela, ao que Carlão acha melhor colocar no ‘digestor’ para fazer ração”, destacam os investigadores.

ADITIVOS: A Carne Fraca afirma que havia ‘falcatruas’ no frigorífico Peccin ‘para não desperdiçar alimentos podres, vencidos, doentes e mal estocados. Laudo da Polícia Federal, ‘ao examinar produtos da empresa Peccin vendidos em estabelecimentos comerciais de Curitiba (salsichas e linguiças), concluiu que a sua composição está em desacordo com a legislação brasileira vigente, extrapolando os valores máximos para analito amido e nitrito/nitrato, e com aditivos não previstos pela legislação e não declarados no rótulo das amostras’.

PAPELÃO: Os investigadores da Carne Fraca descobriram que a organização criminosa lançava mão do prosaico papelão para ‘robustecer’ salsichas e congêneres. Tiras do material eram esmagadas e adicionadas ao produto que chegava à praça prontinho para o consumo. O dono do estabelecimento comenta que no diálogo com seu funcionário eles estavam falando sobre embalar o produto, e não adicionar papelão a mistura. Acreditem no que quiserem.

Consumidor analisando carnes

Os suspeitos são investigados pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção, concussão, tráfico de influência, prevaricação, peculato, crime contra saúde pública, falsificação de documento público, violação de sigilo funcional e fraude documental.

Na dúvida sobre a adequação do produto, espere. Entre em contato com o supermercado ou com o fabricante. Na dúvida, não consuma: Se cheirou e está estranho, a cor está estranha, espere. Redobrar os cuidados é importante, então cuide com coloração avermelhada, textura não pegajosa e lisa, e a ausência de mau cheiro. Em última análise, você tem os órgãos de defesa do consumidor.

Quem não lucrou nas propagandas da Friboi, Seara, Sadia e Perdigão, como você, eu e centenas de milhões de brasileiros, segue navegando na instabilidade financeira e nesse mar de corrupção chamado Brasil, com seus Estados pedindo arrego por falta de verbas, 13 milhões de desempregados correndo atrás de dinheiro para pagar as contas do mês, impunidade e epidemias letais a rodo, como dengue, zika, chikungunya e febre amarela. Se existe um lado bom nessa bandalheira toda – e sempre há – é que, pela primeira vez, as lonas desse circo dos horrores estão escancaradas e quem sabe aí aprendamos algo com isso tudo. O lado ruim? A profundidade e a extensão dessa pesada indigestão. Haja sal de fruta.

 

Referências: Marc Tawil via Linkedin; Estadão; Extra Globo; G1

Texto * | Catarina Schmitz Feijó

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